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segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Odeio vir à casa da minha neta.





Autoria : Fal Azevedo


Fonte: http://colunistas.ig.com.br/palavrasdafal/2009/04/01/as-fotos-na-parede/



Sabe o que eu mais odeio?


Odeio vir à casa da minha neta. Odeio. Não me entenda mal, eu amo minha neta.


Ela é engraçada, carinhosa, o marido dela me trata bem, a filhinha dela é linda. Mas eu odeio vir aqui. Quando ela me liga no sábado à noite, perguntando se quero passar o domingo com eles, minha vontade é sempre dizer não. Claro que eu não tenho coragem e por isso venho quase toda semana.


Às vezes eles têm visitas, às vezes não. A comida que ela faz é gostosa e o marido dela me dá vinho e pisca para mim, mesmo com ela reclamando um pouco.

Eles conversam comigo sobre tudo e dá para perceber o quanto eles gostam de mim. Mas mesmo assim eu odeio ir lá. Odeio mesmo.


Odeio porque minha neta tem uma mania boba de emoldurar em dourado as fotografias da família e pendurá-las na parede. Todas, mesmo as fotos mais antigas estão lá, presas para sempre naquela parede branca. Ela tira o pó cuidadosamente de cada quadrinho daqueles e os exibe com orgulho para quem quer que chegue.

Odeio ir lá porque tenho que ver a cara daquela garota magrela em preto e branco. Uma menina bonitinha, de cabelos escorridos, que umas fotos adiante se transforma numa mulher linda, de cabelos ondulados, sorriso seguro, um bebê no colo. Essa mulher linda está numa porção de fotografias, sempre sorrindo, sempre olhando para a frente. Odeio vê-la. Vê-la me dá vergonha de ter virado o que virei.

Vejo seu sorriso e não posso acreditar que foi o meu sorriso algum dia.
Vejo aqueles cabelos grossos ondulados, aquela pele firme, aquelas mãos sem manchas e sinto vergonha de ser o que sou. Minha neta me pega olhando para as fotos e comenta como eu fui linda. E eu sinto vontade de pedir desculpas por ter envelhecido, ter-me transformado nessa velhinha enrugada, quase careca, cheia de manchas, de bochechas desabadas.

Quero explicar para ela, embora ela saiba, que realmente fui linda um dia, linda.
Quero contar que tive um homem que me amou, não, que tive vários homens que me amaram, que o avô dela não foi o único, que eu poderia ter escolhido qualquer um. Preciso contar como eu já tive um dia uma família que me amava, que precisava de mim.

Crianças, isso, eu tive crianças, lindas, gordinhas, morenas, felizes, que corriam por toda a casa, que entravam gritando meu nome, que diziam que só iam ali ou aqui se eu fosse junto, que dormiam com suas cabecinhas encostadas no meu pescoço e comiam do meu prato.

Quero contar a ela, enquanto ela me olha com seus olhos bondosos e pacientemente me serve de mousse, da mulher encantadora que fui, engraçada, cheia de histórias, animada.


Quero dizer dos meus talentos para pintar, para escrever, para dançar. De como cuidei da minha avó, como agora ela faz comigo. Preciso dizer a ela e ao seu marido que nem sempre eu fui essa velha, que nem sempre eu tive que ser levada para todos os lugares, que nem sempre tiveram que cortar o bife para mim.


Quero pedir desculpas por minhas mãos tremerem tanto, por esquecer o que ia dizer a toda hora, por ter sobrevivido a três dos meus cinco filhos, por não me lembrar do nome de ninguém nem de quando foi a última vez que tomei meu remédio.

Quero dizer que, quando não consigo me lembrar do nome da filhinha dela, não é falta de amor ou consideração, é simplesmente porque já vi muitas garotinhas lindas e todas elas agora se confundem na minha cabeça, fundindo-se numa só.

Quero contar a ela que já fui uma mulher exatamente igual a ela. Como a filha dela será um dia. Mas eu não consigo. Minha voz falha, minha mente se torna confusa e eu babo a mousse de maracujá em cima do guardanapo que o marido dela prendeu no meu peito.

Odeio ir à casa da minha neta.










2 comentários:

Chica disse...

Que maravilha de texto esse.Reflexivo!beijos,chica

maria barbdejesus disse...

E eu ficaria feliz se pudesse ir à casa de minha neta de sete anos!!!